Frei Raniero Cantalamessa, Pregador Pontifício: Não se deve ter medo da Renovação Carismática - Castel Gandolfo (Itália), 26/9/2003
"Longe de ser uma realidade que deva ser observada
com 'prevenção', a experiência do batismo no Espírito faz da
Renovação Carismática Católica um formidável meio querido
por Deus para revitalizar a vida cristã" - constatou esta
quinta-feira o padre Raniero Cantalamessa, pregador oficial da
Casa Pontifícia.
Em 18 de fevereiro de 1967, trinta estudantes e
professores da universidade de Duquesne (Pensilvânia, Estados
Unidos), fizeram um retiro espiritual para aprofundar na força
do Espírito dentro da Igreja primitiva. O chamado teve uma
resposta surpreendente, estendendo-se pelos cinco continentes.
Reconhecida pelo Conselho Pontifício para os leigos,
atualmente mais de cem milhões de católicos vivem esta
experiência, segundo confirma Alan Panozza, presidente dos
"Serviços Internacionais da Renovação Carismática
Católica" (ICCRS, por suas siglas em inglês), com sede no
Vaticano.
Hoje, depois de 35 anos, a Renovação Carismática
está presente em mais de duzentos países.
Considerando os fiéis das Igrejas protestantes,
evangélicas e pentecostais, e alguns da Igreja ortodoxa,
estima-se que no total os cristãos que tiveram esta experiência
carismática somam cerca de 600 milhões no mundo.
Mais de 1.000 líderes da Renovação Carismática
Católica procedentes de 73 países se reuniram na localidade
italiana de Castel Gandolfo em torno ao tema da santidade, à luz
da Encíclica de João Paulo II "Novo Millenio Ineunte"
de 20 a 25 de setembro em um retiro cuja pregação foi
encomendada ao padre Cantalamessa, ofm. Cap.
O Cardeal James Francis Stafford, presidente do Conselho
Pontifício para os Leigos, e o bispo Stanislaw Rylko,
secretário deste organismo vaticano, estiveram entre os
convidados à reunião internacional convocada pelo ICCRS.
Por seus testemunhos de primeira mão na experiência
"carismática", Zenit
entrevistou o padre Raniero Cantalamessa momentos antes da
Conclusão do encontro.
- Zenit: Na Igreja há fiéis que
consideram que o "batismo no Espírito" é uma
invenção dos carismáticos. Inclusive que puseram nome a uma
vivência, mas que não está "catalogada" na Igreja.
Poderia explicar, desde sua própria experiência, o que é o
batismo no Espírito?
- Pe. Raniero Cantalamessa: "O
batismo no Espírito não é uma invenção humana, é uma
invenção divina. É uma renovação do batismo e de toda a vida
cristã, de todos os sacramentos. Para mim foi também uma
renovação de minha profissão religiosa, de minha
confirmação, de minha ordenação sacerdotal. Todo o organismo
espiritual se reaviva como quando o vento sopra sobre uma chama.
Por que o Senhor decidiu atuar neste tempo desta maneira tão
forte? Não sabemos. É a graça de um novo pentecostes.
Não é que a Renovação Carismática tenha inventado o
batismo no Espírito. De fato, muitos o receberam sem saber nada
da Renovação Carismática. É uma graça; depende do Espírito
Santo. É uma vinda do Espírito Santo que se traduz em
arrependimento dos pecados, que faz ver a vida de uma maneira
nova, que revela Jesus como o Senhor vivo, não como um
personagem do passado, e a Bíblia se converte em uma palavra
viva. A verdade é que não se pode explicar.
Há uma relação com o batismo, porque o Senhor diz que
quem crê será batizado e será salvo. Nós recebemos o batismo
de crianças e a Igreja pronunciou nosso ato de fé; mas chega o
momento em que nós temos que ratificar o que sucedeu no batismo.
Esta é uma ocasião para fazê-lo, não como um esforço
pessoal, mas sob a ação do Espírito Santo.
Não se pode afirmar que milhões de pessoas estejam
equivocadas. Yves Congar, este grande teólogo que não pertencia
à Renovação Carismática, em seu livro sobre o Espírito Santo
afirmava que a realidade é que esta experiência mudou
profundamente a vida de muitos cristãos. E é um fato. A mudou e
iniciou caminhos de santidade."
- Zenit: Como vive seu ministério como
pregador da Casa Pontifícia desde sua experiência na
Renovação Carismática?
- Pe. Raniero Cantalamessa: "Para
mim tudo o que passou desde 1977 é um fruto de meu batismo no
Espírito. Era professor na Universidade. Dedicava-me à pesquisa
científica na história das origens cristãs. E quando aceitei
não sem resistência esta experiência, depois tive o chamado de
deixar tudo e colocar-me à disposição da pregação, e também
a nomeação como pregador da Casa Pontifícia chegou depois de
que tinha experimentado esta 'ressurreição'. Vejo isso como uma
grande graça. Depois de minha vocação religiosa, a Renovação
Carismática foi a graça mais assinalada de minha vida."
- Zenit: Desde seu ponto de vista, os
membros da Renovação Carismática têm uma vocação
específica dentro da Igreja?
- Pe. Raniero Cantalamessa: "Sim e
não. A Renovação Carismática, temos que dizer e repetir, não
é um movimento eclesial. É uma corrente de graça que está
destinada a transformar toda a Igreja: a pregação, a liturgia,
a oração pessoal, a vida cristã. Assim que não é uma
espiritualidade própria. Os movimentos têm uma espiritualidade
e acentuam um aspecto, por exemplo a caridade. Antes de tudo, a
Renovação Carismática não tem fundador; nenhum pensa em
atribuir à Renovação Carismática um fundador porque é algo
que começou em muitos lugares de diferentes maneiras. E não tem
uma espiritualidade; é a vida cristã vivida no Espírito.
Mas pode-se dizer que como a gente que viveu esta
experiência constitui socialmente uma realidade, são pessoas
que fazem determinados gestos, oram de certa maneira, então se
pode identificar uma realidade social cujo papel é simplesmente
o de colocar-se à disposição para que outros possam ter a
mesma experiência. O cardeal Leo Jozef Suenens, que foi o grande
protetor e partidário da Renovação Carismática no início,
dizia que o destino final da Renovação Carismática poderá ser
o de desaparecer quando esta corrente de graça tenha contagiado
toda a Igreja."
- Zenit: A ponto de concluir a
pregação de um retiro no qual estiveram mil líderes
carismáticos de todo o mundo, que mensagem gostaria de deixar ao
crente que desconhece a Renovação?
- Pe. Raniero Cantalamessa: "Quero
dizer aos fiéis, aos bispos, aos sacerdotes, que não tenham
medo. Desconheço por que há medo. Talvez em alguma medida
porque esta experiência começou entre outras confissões
cristãs, como pentecostais e protestantes. Contudo, o Papa não
tem medo. Falou dos movimentos eclesiais, inclusive da
Renovação Carismática, como de sinais de uma nova primavera da
Igreja, e muito com freqüência faz referência na importância
disso. E Paulo VI afirmou que era uma oportunidade para a Igreja.
Não há que ter medo. Há Conferências Episcopais, por
exemplo na América Latina, é o caso do Brasil, onde a
hierarquia descobriu que a Renovação Carismática não é um
problema: é parte da solução ao problema dos católicos que se
afastam da Igreja porque não encontram nela uma palavra viva, a
Bíblia vivida, uma possibilidade de expressar a fé de maneira
gozosa, de forma livre, e a Renovação Carismática é um meio
formidável que o Senhor pôs na Igreja para que se possa viver
uma experiência do Espírito, pentecostal, na Igreja católica,
sem necessidade de sair dela.
Tampouco se deve considerar que se trata de uma 'ilha'
na qual se reúnem algumas pessoas que são um pouco emocionais.
Não é uma ilha. É uma graça destinada a todos os batizados.
Os sinais externos podem ser diferentes, mas em sua essência é
uma experiência destinada a todos os batizados."
Fonte: Zenit.org